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Nem toda dor é visível.
E nem toda fé sobrevive intacta ao trauma.

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A culpa depois do silêncio


Há dores que não terminam quando o acontecimento termina.

Ela saiu da igreja como em todas as outras noites.

Levava consigo a fé silenciosa de quem acreditava estar sendo cuidada. Havia naquele caminho de volta uma sensação conhecida de proteção, talvez tão familiar que já nem precisasse ser pensada.

Mas, naquela noite, alguma coisa se rompeu.

Não foi apenas o corpo.

Foi também a ideia de proteção. A confiança no mundo. A imagem de Deus que ela carregava. E, talvez, alguma coisa ainda mais difícil de nomear: a maneira como ela compreendia a si mesma.

Depois, vieram os dias.

O vestido branco já não fazia sentido. O altar havia se transformado em ausência. O amor, que antes talvez significasse abrigo, agora parecia distante.

Ela não explicou.

Não contou.

Não conseguiu.

Algumas experiências não encontram imediatamente uma palavra capaz de contê-las. E, quando não encontram, podem permanecer trabalhando em silêncio.

Aos poucos, ela foi se recolhendo dentro de si mesma.

Ali, construiu um lugar onde a culpa falava mais alto do que a verdade. Um lugar onde a dor não tinha nome suficiente para ser contada e onde Deus parecia ter permanecido em silêncio.

Anos se passaram.

Por fora, a vida continuou.

Por dentro, alguma parte dela ainda estava naquela noite.

É nesse ponto que a experiência do trauma pode revelar uma de suas dimensões menos visíveis. O acontecimento pertence ao passado, mas aquilo que ele passou a produzir dentro da pessoa pode continuar presente.

Não é apenas a lembrança do que aconteceu.

É aquilo que a pessoa passa a acreditar sobre o que aconteceu.

Sobre si mesma.

Sobre os outros.

Sobre o mundo.

E, em algumas experiências, sobre Deus.

A psicanálise nos ajuda a pensar que nem todos os sentimentos conseguem encontrar um lugar consciente dentro de nós. Há afetos que podem parecer incompatíveis com a imagem que construímos de uma relação, de uma pessoa ou de nós mesmos. O amor pode coexistir com a hostilidade. A dependência pode conviver com a raiva. O vínculo pode carregar, ao mesmo tempo, desejo de proximidade e ressentimento.

Essa coexistência de sentimentos aparentemente opostos é parte da ambivalência afetiva.

O problema não está simplesmente em sentir.

Está também naquilo que acontece quando determinado sentimento não pode ser reconhecido.

Quando uma pessoa não consegue admitir a própria hostilidade diante de alguém ou de uma situação significativa, esse afeto não necessariamente desaparece. Na perspectiva psicanalítica, ele pode ser reprimido, deslocado, transformado ou encontrar outros caminhos de expressão.

Aquilo que não pôde ser dito pode continuar procurando uma forma de existir.

E, em determinadas configurações, a agressividade que não encontra um lugar no vínculo pode voltar-se contra o próprio sujeito.

Então uma experiência que poderia ser reconhecida como raiva pode aparecer de outra maneira.

“Eu estou com raiva.”

pode tornar-se, silenciosamente,

“o problema está em mim.”

É uma mudança aparentemente pequena.

Mas pode transformar inteiramente a maneira como uma pessoa passa a habitar a própria história.

A culpa, nesse contexto, nem sempre corresponde à responsabilidade objetiva pelo acontecimento. A psicanálise permite pensar que, em determinadas configurações, ela pode estar relacionada a conflitos inconscientes e à dificuldade de reconhecer sentimentos agressivos dirigidos a objetos significativos.

Isso não significa que toda culpa tenha essa origem.

A culpa possui diferentes determinações.

Mas existe uma possibilidade que merece ser escutada: às vezes, culpar a si mesmo pode ser uma maneira de preservar alguma coisa que ainda é importante.

É como se fosse menos doloroso pensar “eu sou culpada” do que admitir a existência de sentimentos contraditórios em relação àquilo ou àqueles que um dia foram investidos de amor, confiança, autoridade ou proteção.

A agressividade, então, pode mudar de direção.

E aquilo que não pôde ser dirigido para fora pode tornar-se autocensura, autorrecriminação, desvalorização ou necessidade de punição.

A pessoa começa a cobrar de si aquilo que talvez nunca tenha podido dizer a alguém.

Passa a carregar uma responsabilidade que talvez não lhe pertença.

Pode sentir que precisa sofrer para pagar por alguma coisa que não compreende inteiramente.

E, pouco a pouco, a punição deixa de vir de fora.

Ela passa a acontecer por dentro.

Freud encontrou uma formulação particularmente importante para compreender esse movimento em sua reflexão sobre o luto e a melancolia. Ao pensar a relação com o objeto perdido, descreve uma situação em que a relação com aquilo que foi perdido pode transformar-se em uma identificação com o próprio sujeito. A hostilidade anteriormente relacionada ao objeto pode, então, retornar contra o próprio Ego.

É uma imagem poderosa porque ajuda a compreender como alguém pode sofrer e, ao mesmo tempo, dirigir contra si acusações cuja origem não está inteiramente em si.

A pessoa olha para dentro e encontra apenas a própria culpa.

Mas talvez exista, escondida nessa culpa, uma história afetiva muito mais complexa.

Amor e ódio.

Vínculo e decepção.

Dependência e ressentimento.

Perda e raiva.

Sentimentos que não encontraram palavras suficientes para coexistir.

Por isso, elaborar não significa apagar a agressividade.

Também não significa justificar aquilo que feriu.

Significa, antes, permitir que aquilo que foi vivido possa encontrar um lugar psíquico menos destrutivo.

Reconhecer que é possível amar e sentir raiva.

Confiar e decepcionar-se.

Acreditar e sentir abandono.

Ter fé e, em algum momento, sentir raiva de Deus.

Perguntar.

Silenciar.

Até mesmo duvidar.

Talvez a fé também atravesse territórios que não se resolvem por respostas imediatas.

E talvez uma das formas mais dolorosas de sofrimento seja imaginar que, para continuar acreditando, seja necessário esconder aquilo que realmente se sente.

Mas sentimentos que não encontram linguagem não deixam necessariamente de existir.

Às vezes, apenas mudam de lugar.

Atravessam o corpo.

Entram nos vínculos.

Transformam a maneira de olhar para si mesmo.

Podem aparecer como culpa.

Como vergonha.

Como necessidade de punição.

Como dificuldade de permitir-se viver alguma forma de satisfação.

Por isso, talvez algumas histórias não terminem no acontecimento.

Continuam ecoando naquilo que a pessoa passa a acreditar sobre si mesma.

E talvez o cuidado comece quando aquilo que permaneceu sem nome encontra, finalmente, um lugar onde possa ser pensado sem julgamento.

Não para encontrar uma resposta rápida.

Não para transformar a dor em uma explicação.

Mas para que a pessoa possa, pouco a pouco, reconhecer a complexidade daquilo que viveu.

Porque compreender não significa retirar a dor da história.

Às vezes, significa apenas deixar de estar sozinho diante dela.

E talvez exista uma diferença profunda entre carregar uma culpa e poder perguntar de onde ela veio.

Entre punir-se e compreender o que, dentro de si, ainda pede reconhecimento.

Entre acreditar que Deus está em silêncio e poder, finalmente, falar sobre esse silêncio.

Algumas dores permanecem invisíveis porque ainda não encontraram palavras.

E algumas culpas permanecem porque ainda parecem ser a única maneira possível de contar uma história que não pôde ser contada de outro modo.

Talvez elaborar seja começar a descobrir que nem tudo aquilo que sentimos precisa transformar-se em condenação.

E que uma história pode continuar sendo verdadeira mesmo quando ainda não sabemos inteiramente como contá-la.

Nem toda dor é visível. E nem toda fé sobrevive intacta ao trauma.

Mas aquilo que permanece sem nome talvez possa, um dia, encontrar um lugar de escuta.

Referência teórica: inspirado principalmente em Luto e melancolia, de Sigmund Freud.
Referência bíblica: diálogo com a experiência de fé e trauma presente na narrativa.

Para uma vida mais inteira.

Escuta, literatura, formação e cuidado com a experiência humana.

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