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Entre o sentir e o agir

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Entre o sentir e o agir


Nem toda força se manifesta no confronto.

Algumas aparecem na contenção.

Havia caos ao redor.

Palavras duras. Impulsos prontos para ferir. Uma tensão que parecia pedir uma resposta imediata, quase como se responder na mesma medida fosse a única maneira possível de não parecer fraco.

Mas ela não respondeu na mesma medida.

Não porque não tivesse sentido a raiva.

Não porque não tivesse percebido a ameaça.

E muito menos porque aquilo que estava acontecendo não lhe importasse.

Ela sentiu.

Percebeu.

Reconheceu a tensão.

Mas alguma coisa dentro dela conseguiu criar um intervalo.

Um pequeno espaço entre aquilo que estava sentindo e aquilo que faria com o que estava sentindo.

É um espaço quase invisível.

E, muitas vezes, é justamente nele que uma escolha se torna possível.

Porque sentir não é o mesmo que agir.

A raiva pode aparecer sem que precise transformar-se imediatamente em agressão. O desejo pode existir sem precisar ser realizado naquele instante. A frustração pode ser intensa sem precisar encontrar sua resposta na impulsividade.

Isso parece simples quando dito assim.

Mas não é.

Todos nós conhecemos momentos em que uma emoção chega antes da capacidade de pensar sobre ela. O corpo reage. A palavra vem pronta. O impulso pede passagem.

É como se alguma coisa dentro de nós dissesse:

“Faça agora.”

E talvez maturidade não seja nunca ouvir essa voz.

Talvez seja conseguir escutá-la sem entregar a ela, imediatamente, o comando da ação.

Na perspectiva psicanalítica, o conflito não é uma falha da vida psíquica.

Ele faz parte dela.

Amor e ódio podem coexistir. Desejo e proibição podem se encontrar. Dependência e autonomia podem disputar espaço. O que queremos nem sempre coincide com aquilo que consideramos possível, adequado ou desejável.

Não existe uma vida interior completamente livre de contradições.

Por isso, todos nós precisamos encontrar maneiras de lidar com aquilo que sentimos.

É nesse contexto que os mecanismos de defesa podem ser compreendidos.

Eles não pertencem apenas à experiência do adoecimento. Também existem formas mais maduras de lidar com o conflito, formas que não exigem negar a realidade nem fragmentar a experiência de si mesmo.

George Vaillant, a partir de estudos longitudinais sobre o desenvolvimento da vida adulta, descreveu um conjunto de mecanismos considerados maduros ou saudáveis, entre eles o humor, a supressão, o altruísmo, a antecipação e a sublimação.

Entre eles, a supressão nos ajuda especialmente a pensar essa mulher diante do conflito.

Suprimir, nesse sentido, não é fingir que nada está acontecendo.

Também não é expulsar um sentimento da consciência.

É reconhecer que alguma coisa está acontecendo dentro de nós e, ainda assim, decidir que não precisa transformar-se em ação naquele momento.

A raiva continua sendo percebida.

O desejo continua existindo.

O impulso não desaparece.

Mas ele encontra um limite.

E esse limite não precisa ser uma prisão.

Pode ser uma escolha.

Essa diferença é fundamental.

Reprimir e conter não são necessariamente a mesma coisa.

Quando falamos de repressão, estamos diante de um processo inconsciente pelo qual determinado conteúdo é afastado da consciência. Na supressão, ao contrário, o conteúdo permanece acessível ao pensamento: a pessoa reconhece aquilo que sente e pode decidir adiar ou não realizar o impulso.

Há uma espécie de liberdade nesse movimento.

A pessoa não precisa dizer:

“Eu não estou com raiva.”

Pode dizer:

“Eu estou com raiva.”

E, depois:

“Mas não quero responder a partir dela agora.”

Talvez seja uma das formas mais discretas de maturidade.

Não porque a emoção tenha deixado de existir.

Mas porque ela deixou de ser a única autora daquilo que acontece.

O afeto bruto começa a ganhar forma.

A tensão pode tornar-se palavra.

A palavra pode tornar-se pensamento.

O pensamento pode abrir espaço para uma escolha.

E a escolha pode impedir que um instante determine uma história inteira.

Isso não significa que toda contenção seja saudável.

Uma pessoa pode silenciar porque está com medo. Pode engolir sentimentos durante anos. Pode aprender a não incomodar ninguém enquanto aquilo que sente permanece sem elaboração.

Por isso, conter não é simplesmente calar.

A maturidade não está em nunca expressar a raiva, a tristeza ou a indignação.

Está em poder reconhecer o que acontece dentro de si e encontrar uma forma de expressão que não destrua a si mesmo, o outro ou o vínculo.

Existe uma diferença entre não agir imediatamente e nunca poder agir.

Entre escolher uma palavra e perder a própria voz.

Entre sustentar um impulso e negar que ele exista.

O intervalo saudável não elimina o afeto.

Ele permite que o afeto seja pensado.

Talvez seja por isso que algumas pessoas parecem ter uma força que não chama atenção.

Elas não são necessariamente as que falam mais alto.

Não são sempre as que vencem uma discussão.

Não precisam demonstrar que podem ferir porque foram feridas.

Às vezes, sua força aparece justamente naquilo que não aconteceu.

Uma resposta que não foi devolvida.

Uma palavra que foi interrompida antes de ferir.

Uma decisão adiada até que fosse possível pensar.

Uma porta que não foi batida.

Uma guerra que não começou.

Isso não significa passividade.

Ao contrário.

Pode exigir uma força muito maior sustentar a própria experiência sem entregá-la imediatamente ao impulso.

Quando o ego consegue reconhecer o conflito sem ser dominado por ele, torna-se possível encontrar formas mais integradas de lidar com a realidade. A defesa deixa de funcionar apenas como fuga da dor e pode tornar-se um recurso de elaboração.

É nesse ponto que a contenção pode tornar-se transformação.

Não se trata de controlar a emoção como quem controla uma coisa perigosa.

Trata-se de aprender a permanecer diante dela.

Olhar para a raiva sem precisar tornar-se a própria raiva.

Reconhecer o desejo sem precisar obedecer imediatamente a ele.

Suportar a frustração sem transformar o outro em culpado por ela.

Perceber o medo sem permitir que ele decida sozinho o caminho.

Há uma vida inteira acontecendo nesse intervalo.

E talvez seja justamente ali que a consciência começa a ganhar espaço.

Porque uma emoção pode ser verdadeira sem ser uma ordem.

Um impulso pode ser intenso sem ser um destino.

Uma vontade pode existir sem precisar governar a ação.

Quando isso acontece, aquilo que poderia transformar-se em destruição pode encontrar outra forma de existência.

A agressividade pode ganhar palavra.

A tensão pode ganhar pensamento.

O desejo pode ganhar direção.

A dor pode encontrar criação.

A energia que antes parecia exigir descarga pode, em algumas circunstâncias, encontrar caminhos simbólicos e construtivos. A psicanálise chama de sublimação uma dessas possibilidades: o redirecionamento de impulsos para atividades socialmente valorizadas, como a criação, o trabalho, a arte e a produção intelectual.

Talvez a maturidade não seja tornar-se alguém que sente menos.

Talvez seja tornar-se alguém que consegue fazer mais com aquilo que sente.

É diferente.

A pessoa madura não é aquela que nunca se irrita.

É aquela que pode perceber a própria irritação antes de transformá-la em ferida.

Não é aquela que não deseja.

É aquela que consegue reconhecer o desejo e escolher o que fará com ele.

Não é aquela que nunca sofre.

É aquela que, pouco a pouco, aprende a transformar o sofrimento em algo que possa ser pensado, compartilhado e elaborado.

Os mecanismos maduros não eliminam o conflito.

Eles ajudam a pessoa a permanecer em contato com ele sem ser destruída por ele.

E talvez isso explique por que algumas das maiores demonstrações de força são quase invisíveis.

Porque não deixam marcas naquilo que aconteceu.

Deixam marcas naquilo que não aconteceu.

Uma agressão que não foi devolvida.

Uma palavra que encontrou silêncio antes de ferir.

Um impulso que encontrou um limite.

Uma escolha que precisou esperar.

Uma guerra que poderia ter começado, mas não começou.

Nem toda força precisa vencer alguém.

Algumas forças simplesmente impedem que a violência continue passando de uma pessoa para outra.

E talvez exista, nesse pequeno intervalo entre o sentir e o agir, uma das formas mais silenciosas de liberdade:

a possibilidade de não ser obrigado a transformar tudo aquilo que sentimos naquilo que fazemos.

Porque sentir não é o problema.

Talvez a questão seja outra:

quem sustenta aquilo que sentimos até que possamos escolher o que fazer com isso?

Referência teórica: inspirado nos estudos de Sigmund Freud sobre mecanismos de defesa e, especialmente, nas contribuições de George E. Vaillant sobre os mecanismos de defesa adaptativos.
Referência bíblica: inspirado na narrativa de Abigail — 1 Samuel 25.

Para uma vida mais inteira.

Escuta, literatura, formação e cuidado com a experiência humana.

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