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A Clínica começa onde uma pergunta encontra espaço para existir.

Nem tudo o que sentimos precisa ser escondido ou transformado em ação.

Como encontrar outra forma de expressar aquilo que sinto quando não posso agir como gostaria?

Há sentimentos que parecem difíceis de acolher. A raiva, a frustração e certos desejos podem nos colocar diante de conflitos entre aquilo que sentimos e aquilo que podemos fazer.

Às vezes, tentamos esconder o que acontece dentro de nós. Em outras, agimos antes de compreender o que nos mobiliza.

Mas talvez exista um espaço entre negar o que sentimos e agir impulsivamente.

Nesse espaço, podemos começar a reconhecer nossos desejos, compreender nossos limites e descobrir outras formas de expressão.

Nem tudo o que sentimos precisa desaparecer. Algumas experiências podem encontrar novos caminhos para existir.

Às vezes, aquilo que nos feriu continua presente nas maneiras de esperar algo da vida e dos outros.

Quando a dor do passado começa a determinar o que espero dos outros?

Uma perda, uma rejeição ou uma injustiça podem deixar marcas que merecem ser reconhecidas. Mas, às vezes, aquilo que vivemos começa a orientar nossas relações para além do que aconteceu.

Esperamos que o outro compreenda, compense ou repare aquilo que nos faltou. E, quando isso não acontece, a frustração pode reabrir uma ferida que nunca parece encontrar descanso.

Isso não significa que devemos esquecer o passado ou renunciar à reparação de uma injustiça.

Talvez seja possível, pouco a pouco, reconhecer o que nos feriu sem permitir que essa dor determine todas as nossas expectativas no presente.

Às vezes, o brilho do outro toca em algo que ainda não conseguimos nomear em nós.

Quando aquilo que admiro no outro começa a me fazer sentir menor?

Às vezes, aquilo que admiramos no outro também pode tocar em uma falta nossa.

O reconhecimento que alguém recebe, a beleza, a segurança, a liberdade ou a capacidade de ser amado podem despertar comparação.

E, quando a comparação começa a organizar a maneira como nos vemos, o brilho do outro pode parecer uma prova de que somos menos.

Mas talvez aquilo que o outro desperta em nós possa ser escutado de outra maneira.

O que invejamos nem sempre revela apenas o que gostaríamos de possuir.

Pode revelar um desejo, uma ferida ou algo que ainda precisa encontrar lugar em nossa própria história.

O que faço com aquilo que o outro desperta em mim?

Às vezes, o corpo sustenta aquilo que ainda não encontrou palavras.

O que a dor ainda não conseguiu dizer?

Há pessoas que passam muito tempo suportando antes mesmo de aprender a dizer.

Cuidam, resolvem, continuam.

Até que o corpo começa a ocupar um lugar que a palavra não ocupou.

Isso não significa que toda dor tenha uma causa emocional, nem que o sofrimento seja imaginário.

A dor é real e precisa ser cuidada também em sua dimensão física.

Mas talvez exista outra pergunta possível além de “onde dói?”:

o que essa dor significa para você?

Escutar não é procurar uma explicação escondida para o sintoma.

É permitir que a pessoa encontre palavras para sua experiência e possa, pouco a pouco, deixar de viver reduzida àquilo que sente.

Talvez não seja preciso ser perfeito para continuar sendo quem somos.

O que muda quando deixamos de precisar ser perfeitos para continuar respeitando quem somos?

Às vezes, um erro parece dizer muito mais sobre nós do que realmente diz.

Quando precisamos sustentar uma imagem de força, competência ou perfeição, uma falha pode ganhar um peso difícil de suportar.

Reconhecer um limite, porém, não precisa significar diminuir-se. Uma contradição não precisa destruir a imagem que construímos de nós mesmos.

Talvez exista maturidade em poder olhar para aquilo que não saiu como esperávamos sem transformar a experiência em condenação.

E, às vezes, até o humor pode abrir esse pequeno espaço: não para negar o que aconteceu, mas para lembrar que uma falha é parte da história — não a história inteira.

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Para uma vida mais inteira.

Escuta, literatura, formação e cuidado com a experiência humana.

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